Bolsonaro e Lula avançaram para o segundo turno em 25 de outubro, ao vencerem em um grupo de 12 candidatos após uma campanha centrada na preocupação com o aumento do custo de vida, a corrupção e a insegurança no cotidiano dos brasileiros.
O filho do ex-presidente de direita Jair Bolsonaro, que cumpre uma condenação de 27 anos por planejar um golpe de Estado após perder as eleições de 2022, dirige-se agora a um confronto com Lula, que obteve 45% dos votos, com mais de 99% dos votos apurados.
“O Brasil quer mudança e estou muito feliz com os resultados”, disse Bolsonaro a jornalistas em Brasília após a divulgação dos resultados com a contagem quase total dos votos, antes de apontar o que afirmou ser “o fim da era do Partido dos Trabalhadores (de Lula)”.
As pesquisas privadas anteriores previam que Lula lideraria o primeiro turno por cerca de três pontos percentuais. O desempenho de Bolsonaro, melhor do que o esperado, impulsionará sua campanha e poderá fortalecer o real e a bolsa brasileira, que subiram graças às perspectivas do candidato oposicionista, favorável ao mercado.
“Os institutos de pesquisa erraram feio”, afirmou Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé. “É de se esperar que as pesquisas de segundo turno, que apontam empate técnico, também subestimem o apoio a Bolsonaro”.
Uma vitória de Bolsonaro no segundo turno prolongaria a onda de vitórias na América Latina de candidatos de direita alinhados com Donald Trump, enquanto a reeleição de Lula poderia representar uma dor de cabeça para Washington, que tem enfrentado embates com o governo dele em questões de comércio e segurança.
Apesar da crescente preocupação com a saúde fiscal do Brasil e com o lento crescimento econômico, a campanha ofereceu pouco debate político substancial, já que os candidatos principais estiveram ausentes dos principais debates televisados.
Bolsonaro havia dito no início de domingo que apostava em “um voto de protesto de pessoas que, de outra forma, votariam em outro candidato, mas se opõem a Lula”.
Thaise Lima, uma advogada de 41 anos, afirmou que seu principal objetivo era retirar o Partido dos Trabalhadores do poder.
“Não acho que Flavio seja o melhor candidato, mas talvez decida votar nele”, disse, acrescentando que gostaria que o psiquiatra e escritor Augusto Cury fosse um candidato mais viável.
VENTOS CONTRÁRIOS
Apesar da redução da desigualdade e do desemprego, Lula tem tido dificuldades para conquistar votantes que enfrentam o aumento do custo de vida, as dívidas crescentes das famílias e a crescente atuação de facções criminosas.
“O voto de protesto antecipa o que ocorrerá no segundo turno”, disse o analista político Rafael Favetti. “Embora isso deva beneficiar Flavio Bolsonaro agora, seu potencial de crescimento no segundo turno diminui precisamente porque esse apoio já se concentrou no primeiro turno”.
Bolsonaro tem tentado tirar proveito da preocupação com o custo de vida, enquanto Lula tem adotado medidas para proibir apostas online, às quais se atribui o papel de alimentar o endividamento; e, à medida que a contenda se estreitava, ampliou as ajudas sociais e anunciou a anulação de dívidas para as famílias.
O aumento dos gastos públicos e uma dívida pública superior a 82% do PIB acenderam preocupações fiscais que o próximo presidente do Brasil poderá ter de enfrentar. O governo reduziu as projeções de crescimento econômico para este ano e para o próximo a apenas 2,0% e 2,3%, respectivamente.
“Votei para que o Brasil volte a crescer”, afirmou Marciano de Sousa e Silva, um funcionário público de 52 anos de Brasília e ex-votante de Lula que migrou para a direita, votando em Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, e em seu filho neste domingo.
“O melhor programa social é aquele que incentiva as pessoas a abrir empresas, a gerar riqueza real”, afirmou.
Um bom desempenho dos candidatos de direita no Senado, nas eleições de domingo, poderia ajudar Bolsonaro a aprovar reformas econômicas, estabelecer uma “política fiscal mais prudente” e, em última instância, impulsionar o crescimento caso seja eleito, disse Marco Saravalle, diretor de investimentos da MSX Invest/Krivo Capital.
Além do debate sobre políticas públicas, um escândalo que envolve o agora desaparecido Banco Master atingiu grande parte da classe política brasileira e reacendeu a indignação pública com a corrupção.
Daniel Vorcaro, o ex-diretor do banco, foi preso no início deste ano por suposto fraude multimilionária.
As investigações têm buscado vínculos de Vorcaro com figuras que vão desde o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes até o próprio Flávio Bolsonaro, que está sob investigação por lavagem de dinheiro relacionada ao caso.
O senador negou ter cometido irregularidades, embora tenha confirmado ter recebido milhões de dólares de Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai.
Ao longo da campanha, aliados de Lula alertaram que o governo de Trump poderia se recusar a reconhecer os resultados caso o líder de esquerda vencesse, apontando para uma tentativa frustrada de enviar funcionários norte-americanos ao Brasil.
“O que está em jogo é o futuro do Brasil”, disse Lula após votar em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo.
Trump não apoiou formalmente nenhum candidato, embora tenha recebido o senador Flavio Bolsonaro na Casa Branca e o tenha elogiado publicamente.
“Confiamos no nosso presidente Lula, que lutará pela soberania nacional”, afirmou Pedro Palacio, de 45 anos, que votava em Brasília ao lado da esposa, Andreia, de seus dois filhos e dois cães, todos usando roupas em apoio ao presidente.
(Reportagem de Lisandra Paraguassu, Brendan O’Boyle, Ricardo Brito e Marcela Ayres em Brasília; Luciana Magalhães, Oliver Griffin e Fernando Cardoso em São Paulo; Rodrigo Viga Gaier no Rio de Janeiro; Redação de Brendan O’Boyle e Oliver Griffin. Edição em espanhol por Javier Leira e Manuel Farías)