Um passageiro a bordo do voo da Flydubai: ‘Tive que sacudir os pilotos substitutos para que assumissem o controle do avião’

17 de outubro de 2026

TEL AVIV.– FZ1073 da Flydubai, que carregava quase 180 passageiros de Dubai para Tel Aviv, terminou aterrissando de emergência em Tabuk, na Arábia Saudita, após um episódio violento na cabine. Enquanto vários passageiros lutavam com o homem que havia atacado um dos pilotos, a aeronave perdia altitude e dois pilotos adicionais que viajavam a bordo pareciam paralisados pela situação.

Um passageiro israelense que participou daqueles minutos de caos relatou ao jornal The Jerusalem Post como conseguiu fazê-los reagir para retomar o controle da aeronave e como, juntamente com outros viajantes, improvisaram uma forma de imobilizar o agressor.

“Tive que sacudi-los [os pilotos suplentes] para que se movessem para a frente e tomassem o controle do avião, porque estava caindo”, contou o homem, cuja identidade foi preservada pelo jornal israelense.

O passageiro manteve comunicação durante várias horas por WhatsApp com o jornalista Zvika Klein ainda na Arábia Saudita, onde o voo FZ1073 da Flydubai, que partiu de Dubai com destino a Tel Aviv, havia feito uma aterrissagem de emergência.

Segundo o relato dele, o incidente começou quando um dos pilotos atacou o outro com uma pequena faca e o apunhalou várias vezes. O agressor tentava obrigar o piloto ferido a sair da cabine, aparentemente para ficar sozinho no comando da aeronave.

Foi então que passageiros israelenses que estavam sentados perto da frente do avião correderam para a cabine e se juntaram à luta, contou o entrevistado.

O homem esclareceu ao The Jerusalem Post que não havia sido um dos que lutaram fisicamente contra o agressor. Sua tarefa, disse, foi conseguir que outros dois pilotos da Flydubai que viajavam no avião chegassem até a cabine e procurassem algum elemento que permitisse imobilizar o agressor.

De acordo com a reconstrução dele, os passageiros conseguiram sacar o atacante e permitir a entrada dos outros pilotos. Um deles assumiu o controle do avião, enquanto o segundo precisou de mais tempo para reagir ao impacto da situação.

O passageiro assegurou que ambos trabalhavam para a Flydubai e que, segundo ele, tinham sido designados para viajar nesse voo. A presença de quatro pilotos a bordo não estava vinculada a nenhuma alerta de segurança prévia.

Segundo explicou o The Jerusalem Post, os dois pilotos adicionais haviam sido designados para o voo ante a possibilidade de eventuais desvios de rota por causa da situação regional prolongarem a viagem e levarem a tripulação original a exceder os limites permitidos de horas de serviço.

Enquanto o avião permanecia em uma situação crítica, os passageiros precisavam encontrar uma maneira de segurar o agressor. A solução foi improvisada.

“O que eles usaram?”, perguntou o jornalista.

“Cabos de carregadores”,

respondeu o passageiro.

E acrescentou, com humor: “No deserto, cada espinho é uma flor.”

O entrevistado contou ainda que um dentista israelense que viajava no avião começou a atender o piloto ferido. Segundo a versão dele, o homem encontrava-se gravemente ferido e a intervenção do profissional foi decisiva, embora o diário tenha indicado que também não foi possível confirmar de forma independente o estado médico do piloto.

Durante a conversa, o passageiro se referiu repetidamente ao agressor como um “terrorista” e expressou irritação diante das dúvidas sobre essa caracterização.

No entanto, quando o jornalista lhe perguntou sobre uma versão que circulava de um suposto grito de “Allahu akbar” (Deus é grande, em árabe), o homem foi categórico.

“Eu estava exatamente ao lado da cabine e não o ouvi, e os outros que estavam comigo também não o ouviram”, afirmou. “Ninguém de nós o ouviu”.

A motivação do ataque ainda não estava confirmada.

Depois da aterrissagem em Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, médicos sauditas atenderam crianças e passageiros que sofriam de ataques de pânico e as autoridades forneceram comida aos viajantes, segundo contou o entrevistado.

O passageiro destacou ainda o tratamento recebido. Quando o jornalista perguntou como os sauditas se comportaram, ele respondeu: “Muito amáveis. Muito compreensivos”.

Segundo contou, durante a emergência atuou de maneira quase automática, concentrando-se em ajudar, e pensava que só terminaria de processar o ocorrido quando retornasse a Israel.

Então lembrou das crianças que viajavam no avião.

“Havia gritos terríveis de crianças que não queriam morrer”, relatou.

Um dos homens que havia participado do enfrentamento com o agressor viajava com sua filha. “Uma menina cujo pai estava lutando com o terrorista gritava que não queria que ele morresse”, contou o passageiro. “Esse foi o único momento em que parei e pensei nos meus filhos”.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.