Tristeza no momento da alegria: depressão pós-parto afeta a vida das famílias (Créd. Rafael Petry)

A triste história da mãe de 39 anos que cometeu um infanticídio seguido de suicídio, neste final de semana, em Santa Catarina, reabriu a discussão sobre a depressão pós-parto, suas causas e a importância em detectar sintomas para evitar consequências trágicas.

A depressão pós-parto é uma condição de profunda tristeza, desespero e falta de esperança que acontece logo após o parto. Em alguns casos, a situação pode se complicar e evoluir para uma forma mais agressiva e extrema da depressão pós-parto, conhecida como psicose pós-parto. A depressão pós-parto traz inúmeras consequências ao vínculo da mãe com o bebê, sobretudo no que se refere ao aspecto afetivo.

Principais causas e sintomas

Não existe uma única causa conhecida para depressão pós-parto. Ela pode estar associada a fatores físicos, emocionais, estilo e qualidade de vida, além de ter ligação, também, com histórico de outros problemas e transtornos mentais.

Conforme a psicóloga Roberta Monteiro, coordenadora do Caps – Centro de Atenção Psicossocial, o parto é apenas um gatilho para desencadear a depressão em pessoas que tenham pré-disposição à depressão por diversas causas.

No entanto, a principal causa da depressão pós-parto é o enorme desequilíbrio de hormônios em decorrência do término da gravidez. Além disso, outros fatores podem provocar a depressão pós-parto, como a privação de sono, alimentação inadequada, falta de apoio do parceiro e da família, depressão, ansiedade, estresse ou outros transtornos mentais.

“Algumas mães, que preferem não se identificar, contam que é uma sensação insuportável, ‘vontade de morrer, só quem passou por isso sabe’, diz uma delas”.

Fique atento aos sintomas típicos da depressão pós-parto que são melancolia intensa, desmotivação profunda diante da vida, ausência de forças para lidar com a rotina e muita tristeza, acompanhada de desespero constante.

Além disso, outros sinais bem claros podem ser facilmente identificados como a perda de interesse por atividades diárias, pensamento na morte ou suicídio, vontade súbita de prejudicar ou fazer mal ao bebê, perda ou ganho de peso, vontade de comer mais ou menos do que o habitual, dormir muito ou insônia, inquietação e indisposição constante, cansaço extremo, sentimento de indignação ou culpa, dificuldade de concentração e tomada de decisões, ansiedade e excesso de preocupação.

Já os casos mais graves de psicose pós-parto, os sintomas, que começam geralmente durante as primeiras três semanas após o parto, incluem, desconexão com o bebê e pessoas ao redor, sono perturbado, mesmo quando o bebê está dormindo, pensamento confuso e desorganizado, vontade extrema de prejudicar/fazer mal ao bebê, a si mesma ou a qualquer pessoa, mudanças drásticas de humor e comportamento, alucinações, que podem ser visuais, auditivas ou olfativas, e pensamentos delirantes e irreais.

Principal causa para a doença é a disfunção hormonal pós-gestação (Créd. Rafael Petry)

O tratamento

A depressão pós-parto, se não tratada adequadamente, pode durar meses e até tornar-se um distúrbio depressivo crônico. Mesmo quando tratada, a depressão pós-parto aumenta o risco de futuros episódios depressivos, o que demanda um acompanhamento periódico da saúde mental da pessoa. É importante atentar que, em casos mais graves, a depressão pós-parto pode levar ao suicídio.

De acordo com as psicólogas Roberta Monteiro e Raquel Bender do Caps, a identificação de casos da doença, geralmente, são feitos na rede de Atenção Básica, que presta os primeiros atendimentos, com psicólogas que atendem na rede. Os casos mais graves são encaminhados ao Caps para um atendimento mais intensificado.

Primeiro é feito o acolhimento, psicoterapia em grupo e, posteriormente, individual, conforme necessidade. Alguns casos são encaminhados para o tratamento medicamentoso com psiquiatras. Importante destacar que toda mulher que dá à luz é acompanhada em seu puerpério pela Estratégia de Saúde da Família e tem direito assegurado de tratamento relacionado à depressão pelo SUS – Sistema Único de Saúde.

Reflexos nos filhos

A literatura cita efeitos no desenvolvimento social, afetivo e cognitivo da criança, além de sequelas prolongadas na infância e adolescência. Os custos emocionais ligados à depressão pós-parto fazem com que a mãe interaja menos com a criança.

Se não for tratada corretamente e de forma imediata, a depressão pós-parto pode interferir negativamente o vínculo entre mãe-filho e causar problemas familiares, muitos deles irreversíveis. Filhos de mães que têm depressão pós-parto não tratada são mais propensos a ter problemas de comportamento, como dificuldades para dormir e comer, crises de birra e hiperatividade.

Os atrasos no desenvolvimento da linguagem são mais comuns também. “Interessante salientar que alguns casos que chegam no Caps são casos de depressão onde os filhos já têm mais de 3/4 anos, sendo que a depressão das mães iniciou após o parto e foi se intensificando, tornando-se insuportável apenas um tempo depois. Nestes casos precisamos primeiro detectar o fundo emocional que causou a depressão, para depois tratá-la”, relata Roberta.

Mães relatam o problema

Algumas mães, que preferem não se identificar, contam que é uma sensação insuportável, “vontade de morrer, só quem passou por isso sabe”, diz uma delas. “Eu não tinha vontade de fazer nada e tinha pensamentos muito ruins em relação a mim e ao meu filho. Graças a Deus minha família me ajudou e procurei ajuda profissional”, conta uma mãe que passou pela doença logo após o nascimento do filho.

O pior problema para elas é a indiferença da família e principalmente dos companheiros, que fingem não perceber o problema e preferem ignorá-lo. “Minha filha hoje tem 5 anos e foi por ela que venci a depressão, ficava mal, mas pensava nela e superava tudo. Procurei ajuda médica e superei por ela”, conta feliz uma mãe, que levou mais de dois anos para superar a doença.