Estância Velha – Foi seguindo a mulher de um traficante que o setor de inteligência da Brigada Militar descobriu o esconderijo em que estava refugiado o assaltante Rafael Santos Domingues, 19 anos, apontado como um dos autores do latrocínio que vitimou Leomar Canova e Luiz Fernando Canova, no último dia 10, em Estância Velha. O jovem estava em uma casa protegida por muros altos no interior de Portão, na companhia da namorada e da esposa do traficante Zoreia, tido como o chefe do tráfico na Vila Brás, em São Leopoldo.

Os policiais trabalhavam com a possibilidade de Domingues estar sendo protegido pelo traficante conhecido por Zoreia há alguns dias e essa hipótese ganhou força na última segunda-feira, durante diligências. Mesmo preso, Zoreia estava dando suporte à fuga de Rafael em reconhecimento à lealdade que sempre teve com a facção e por seu engajamento com o tráfico de drogas na Brás. Rafael era considerado um “soldado” de confiança de Zoreia.

Com base nestas informações, a Brigada Militar iniciou uma etapa da missão e passou a procurar vestígios daquela que é o elo de ligação de Zoreia com os “soldados”, que administram o tráfico de drogas na comunidade mesmo durante sua ausência. Quando encontraram a mulher do traficante, os policiais passaram a segui-lá até que chegaram a casa onde Rafael e a namorada estavam escondidos.

IMPORTÂNCIA DA PRISÃO
A prisão de Rafael Domingues tem um significado importante para a polícia. Além do caráter simbólico, pois representa uma resposta à sociedade, também pode servir de trampolim para a prisão Davi dos Santos Mello, 20 anos, o segundo criminoso com prisão preventiva decretada por envolvimento no latrocínio. De acordo com o delegado regional, Eduardo Hartz, a prisão de Davi é questão de tempo para acontecer. “Seguramente, em questão de dias ele vai ser preso”, avisou Hartz.

O chefe da Polícia Civil no Vale do Sinos, contudo, não revelou detalhes da investigação e das denúncias que estão chegando em relação ao possível paradeiro deste criminoso, mas informou que chegaram diferentes denúncias sobre ambos os assaltantes, desde que teriam fugido para fora do País, foram do Estado, em municípios vizinhos, no Litoral, “enfim, todas elas vinham sendo averiguadas”, afirmou Hartz.

Se dizendo injustiçado, Rafael não
contribuiu para esclarecer fatos

No final da manhã de ontem, Rafael Santos Domingues foi interrogado pelo delegado Márcio Niederauer, que comanda a investigação há duas semanas. O acusado decidiu não responder as perguntas, mesmo se dizendo inocente no caso. Por quase uma hora e meia, delegado e agentes do setor de investigação estiveram frente a frente com Rafael, e o máximo que conseguiram arrancar dele foram poucas palavras, todas insignificantes para a elucidação do caso e para a investigação.

Assistido por dois advogados, Rafael optou pelo silêncio. “Ele não falou porque ainda não sabemos nada a respeito do inquérito, estamos pegando o caso agora e não conseguimos analisar as provas”, justificou a advogada Marineuza Lauthart. Mesmo sabendo que não teria respostas para as perguntas, o delegado fez questão de fazer o questionário ao preso. “Informalmente, ele nega a autoria do crime. Diz que não foi ele e que não conhece o Davi”, disso Niederauer. Em contrapartida, quando foi questionado se teve em Estância Velha no dia 10 de abril, se conhecia a ótica onde aconteceu o crime, porque estava fugindo esse tempo todo, não quis responder. “Se dizendo injustiçado, não colaborou em nada para esclarecer os fatos. Não tenho dúvidas da participação dele no crime”, pontuou o delegado.

MATERIAL GENÉTICO
Ainda durante o interrogatório, que aconteceu na sede da Delegacia Regional, em São Leopoldo, o delegado sugeriu a Rafael a coleta do seu material genético para confrontar com materiais eventualmente alcançados pelos peritos no interior da Ótica Elaine e no interior do Honda City usado pelos bandidos no dia do latrocínio. “Ele não permitiu que fizéssemos a coleta”, disse o delegado, o que representa mais um indício de que Rafael não está simpático a colaborar com a investigação de um crime que diz não ter praticado.

RECONHECIDO NOVAMENTE PELAS VÍTIMAS
Outro momento importante aconteceu logo após Rafael Domingues ser interrogado. Já na sede da Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) de São Leopoldo, a polícia submeteu o acusado ao auto de reconhecimento pessoal, que é quando vítimas e testemunhas são acionadas para fazer uma espécie de contraprova do reconhecimento fotográfico, realizado na fase anterior a prisão de criminosos.
As vítimas voltaram a reconhecer Rafael Domingues como sendo um dos criminosos que invadiu a ótica Elaine, naquela fatídica manhã de quarta-feira, quando os empresários Leomar e Luiz Fernando foram assassinados brutalmente.
Neste ato, o delegado Márcio Niederauer tentou mais uma diligência que considerava plausível: pediu para Rafael falar e se movimentar. A intenção era ver se as vítimas reconheceriam o tom de voz e os trejeitos do acusado. Contudo, o assaltante decidiu, mais uma vez, não colaborar com a investigação.

Regalias com os dias contados: Rafael tinha a ordem de deixar a casa na quarta

A prisão de Rafael Domingues foi realizada por onze policiais do Pelotão de Operações Especiais (POE) da Brigada Militar de São Leopoldo. Após o serviço de inteligência da BM levantar o paradeiro de Rafael, o POE foi colocado na missão para invadir a casa em que o assaltante estava refugiado, com a namorada. A prisão aconteceu por volta das 23h30 de terça-feira (23), na rua Peterson, que fica no Loteamento Albino Kern. A casa, com muros altos e equipada com uma piscina, fica em uma rua sem saída, que dá fundos para o Arroio Portão.

O ambiente amplo e discreto, distante da área urbana da cidade, era o esconderijo ideal para Rafael e a namorada passarem por um longo período. Mas o trabalho aguçado da polícia e o fato de a residência pertencer a um traficante levaram ao resultado já conhecido. Não fosse por isso, no entanto, Rafael também não tinha carta branca – embora tivesse sendo protegido pelo chefe do tráfico da Brás – para permanecer ali por tempo indeterminado. Conforme a Brigada Militar apurou, Rafael chegou na residência na última segunda-feira e recebeu a permissão de Zoreia para ficar por apenas três dias. “Nesta quarta-feira, caso não tivesse sido preso, ele teria que procurar outro local para ficar”, explicou o sargento Leonardo Baggio Iop, que coordenou a incursão das equipes do POE na casa em que o assaltante estava.

Quando percebeu a chegada a polícia, Rafael correu em para os fundos da residência e tentou fugir por um campo, porém, não contava com uma sequência de cercas de arame farpado pelo caminho. Ferido e sem forças, acabou preso. “Ele saltou três cerca de arame farpado e acabou se ferindo”, explicou o policial.

COMENDO PIZZA DEPOIS DO JOGO
No momento em que a Brigada Militar surpreendeu o foragido, ele e as companhias estavam comendo pizza. O grupo fazia a refeição após assistirem o jogo do Grêmio contra o Libertad, pela Libertadores. Rafael é gremista.
Na casa, a polícia não encontrou nada que pudesse complicar a situação da mulher do traficante Zoreia e a namorada de Rafael. Os agentes também perceberam que Rafael e a namorada, de fato, estavam de passagem rápida pelo local já que não encontraram nada de bens pessoais de ambos. “Ele estava só com a roupa do corpo”, observou o sargento.

Contudo, dois aparelhos celulares encontrados no local foram apreendidos e serão objeto de análise por parte da Polícia Civil. Um dos aparelhos foi quebrado no momento em que os moradores perceberam a chegada da polícia. A ação tem a finalidade de tentar inviabilizar o acesso ao conteúdo armazenado nele pela investigação.

Família defende Rafael e aponta álibi

Após ser preso, Rafael foi levado à DPPA de São Leopoldo. Logo depois de chegar na delegacia, familiares do preso já estavam de prontidão no saguão da delegacia aguardando informações sobre a prisão. O Diário conversou com a namorada de Rafael, que estava fugindo com ele desde o dia 11, e com o pai do jovem.

O pai saiu em defesa do filho e negou a participação dele no latrocínio. “Não foi ele”, garantiu o pai. O homem relatou que não mantinha contato com o filho desde o dia em que ele decidiu fugir, mas justifica que a decisão de sair da Brás aconteceu após ser ameaçado por desafetos de uma facção rival. “Não sabia por onde ele andava e estamos sofrendo desde o primeiro momento”, disse.

A namorada do acusado explicou que tem certeza da inocência de Rafael. Segundo ela, no dia do latrocínio, ele esteve em um CFC para dar início à habilitação. Ela informou, ainda, que ambos passaram o dia juntos. Contudo, a Polícia Civil informou que já havia apurado o álibi apresentado pela família. “Ele foi fazer a habilitação na parte da tarde e o assalto foi pela manhã”, explicou o delegado Márcio Niederauer. “Eu e a mãe dele estávamos com ele de manhã, e de tarde ele foi fazer a habilitação”, retrucou a namorada.