Ela fez transplante de fígado em 2001 e, a cada ano, ela comemora, mas, ao mesmo tempo, faz questão de ressaltar a importância de ser doador (FOTO: Cleiton Zimer)

Dois Irmãos – Aos 73 anos , Terezinha Ramos Soligo comemorou nessa segunda-feira, dia 9, seu aniversário de 18 anos. Sim, 18 anos de uma vida nova, que começou a partir do momento em que foi presenteada com a doação de um novo fígado.

Além de comemorar, Terezinha faz questão de falar desse assunto, conscientizando as pessoas sobre a importância da doação de órgãos. “Antes de ser transplantada, eu já era doadora. Mas até então eu nunca dava a devida atenção para isso, mas hoje, sei da relevância de cada um ser doador de órgãos e acreditar nessa causa maior, pois uma única pessoa pode salvar várias vidas”, comenta.

Mesmo aposentada, Teresinha ainda mantém suas atividades como costureira (FOTO: Cleiton Zimer)

 O diagnóstico

Mãe de cinco filhos e casada com João Soligo, Terezinha conta que foi diagnosticada com cirrose hepática, causada pela hepatite B, em julho de 2000 e, assim, foi colocada na fila de urgência para o transplante do fígado. “Antes de ser diagnosticada, eu estava há nove anos sofrendo com constantes dores de cabeça, pressão alta e inchaço nas pernas. Fazia vários tratamentos contra esses sintomas, mas, naquela época, os médicos não conseguiam fazer um diagnóstico preciso. Eu tinha estoques de remédios em casa”, disse.

Devido a esses sintomas, chegou a ser encaminhada para uma cirurgia vascular e, nesse período, teve fortes dores no estômago e na cabeça, levando-a ao Postão de Dois Irmãos por três vezes no mesmo dia. “O médico que me atendeu pediu uma bateria de exames e, com os resultados, foi atestado que eu estava com cirrose hepática”.

A vida por um fio

Com isso, foi encaminhada para o Hospital São José. “Naquela noite cheguei a vomitar água com sangue, de tão avançado que estava o meu caso. O Dr. Antônio Satyro logo me encaminhou ao Dr. João Batista Pinheiro, em Novo Hamburgo, onde fiz uma endoscopia. Lá o médico chamou a minha família e avisou que a minha vida estava por um fio”, relembra.

Seu marido, João Soligo, afirma que a esposa ficou 12 horas desacordada. “Quando ela finalmente acordou, toda a família estava reunida à sua volta. O médico comemorou, falando que havíamos ganhado uma batalha, mas não a guerra. A partir de então, com muita força, fé e determinação, seguimos em frente, à espera de um transplante”, relembra João.

Terezinha com seu marido João Soligo (FOTO: Cleiton Zimer)

 

União

Após realizar novos exames, em abril de 2001, dona Terezinha entrou para a fila de transplante. “Eles solicitaram que a família providenciasse 50 doadores de sangue. Fiquei apavorada no início, pois não sabia de onde poderia tirar tanta gente. Como eu era catequista, anunciamos na igreja e, também, nos jornais da cidade. No final fomos surpreendidos, pois 68 pessoas se disponibilizaram para doar”, recorda.

Ela e o marido contam que, dos 68 doadores, 13 descobriram que estavam com hepatite após realizar a doação de sangue. “Com isso, fica ainda mais nítida a importância de doar. Pois além de ajudarmos os outros, nos ajudamos. Cada doação é submetida a exames”, ressalta.

“A ligação que mudou minha vida”

Terezinha continuou em tratamento para se preparar para o transplante. Passados cinco meses, no dia 8 de setembro, recebeu a ligação tão esperada e, ao mesmo tempo, temida. “Era o Dr. Álvaro, me perguntando se eu estava bem e tudo mais. Logo respondi que sim e, com isso, ele falou que tinha chegado um fígado que era compatível comigo. Perguntou se eu queria fazer um transplante. Logo respondi que sim, mas, quando desliguei o telefone, fiquei apavorada. Eu tinha esperado tanto por aquele momento, mas, de repente, fiquei assustada. Com o apoio do meu marido e filhos, que me deram muita força, nos preparamos e seguimos até a Santa Casa de Misericórdia, onde a cirurgia foi realizada no dia seguinte”, conta.

Naquele momento, Terezinha não sabia se a ligação representava o seu fim, ou então, um novo começo. “Naquela época, ao contrário do que é hoje, os transplantes eram 85% êxito e 15% óbito. Mas coloquei a minha vida na mão dos médicos e, eles, abençoados por Deus, trabalharam durante oito horas, salvando minha vida.  Então, apesar do meu medo, tudo deu certo”, recorda.

João até hoje ressalta que a Santa Casa representa exemplo nacional por seus êxitos nos transplantes.

Só gratidão

Aposentada e com 73 anos, Terezinha é, acima de tudo, uma mulher trabalhadora, dedicada e amorosa com todos que a cercam.  “Hoje eu só tenho a agradecer à minha família, aos meus amigos e todos que de alguma forma ou de outra acompanharam tudo o que aconteceu comigo. Em especial, agradeço às equipes médicas, desde os que me diagnosticaram, que me acompanharam e que fizeram o meu transplante. Sem dúvida, os médicos são guiados por uma força divina”.

“Com isso, agradeço as pessoas que são doadoras, pois se não fosse por alguém, com certeza eu não estaria aqui hoje. Sem dúvida essa pessoa disse sim, e os familiares respeitaram essa decisão. Por isso, é muito importante que se comunique a vontade de ser doador ainda em vida”, concluiu.

 

Um gesto que pode salvar muitas vidas

Mauro Nör Billodre é cardiologista e destaca a importância da doação de órgãos

 

O cardiologista Dr. Mauro Nör Billodre reforçou a importância da doação de órgãos. O médico desmistifica alguns conceitos antigos relacionados ao tema, afirmando que a doação de órgãos no Brasil é coordenada por um sistema organizacional de captação de órgãos. “Antigamente, se pensava que alguns poderiam pular fila e se privilegiar de alguma forma, mas isso não existe. Temos esse órgão que regula tanto a captação como a distribuição de acordo com critérios bem estabelecidos, como gravidade e risco. Existe uma fila única de espera, que é o Sistema Nacional de Transplantes, e ela é controlada pelo Ministério Público”, comenta.

De acordo com Mauro, o tempo de espera para o transplante de órgãos varia. “O tempo de espera do rim é de 31 meses, córneas 9 meses, fígado 22 meses, pâncreas/rim dois meses, coração quatro meses, pâncreas 12 meses e pulmão seis meses”.

Dúvidas

Outra questão abordada por Mauro são as dúvidas das pessoas em relação à extração dos órgãos. “Alguns familiares ficam na dúvida se o familiar realmente faleceu, se vão tirar os órgãos com a pessoa ainda viva. Mas isso não existe. Hoje, pela legislação brasileira, são realizadas avaliações por três médicos: dois com avaliações clinicas e mais um terceiro que vai fazer um exame complementar”, explica. “É importante destacar que, mesmo que a pessoa esteja com o coração batendo, os rins funcionando, se é constada morte cerebral a pessoa é considerada como morta”.

O médico concluiu que é de suma importância que as pessoas manifestem em vida seu desejo de ser doador. “É importante falar com a família para que, depois, eles consigam ser a voz dessa pessoa”, concluiu.